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Pode uma mulher com barriguita, ancas redondas e peito cheio brilhar numa passarela de alta-costura? A actriz Jessica Athayde julgou que sim e desfilou no Moda Lisboa de biquíni. Foi o suficiente para lhe chamarem balofa, gorda e outras tantas coisas desagradáveis sobre o seu aspecto físico nas redes sociais. E foi o suficiente também para ela responder à letra aos ataques, ressuscitando um velho tema que, volta e meia, cansa a beleza de todas as mulheres. A actriz reagiu às críticas que, em poucos dias, se tornaram virais no Facebook ou nos blogues, mas o certo é que pouco poderá fazer contra a tirania da imagem.Esta é uma luta contra uma "doença social", avisa a endocrinologista Isabel do Carmo, uma doença que começa na adolescência e contamina o resto da vida.A imagem do que é perfeito condiciona-nos culturalmente, sobretudo na adolescência. Mas não só. "O corpo é uma referência em todas as idades e épocas. Portanto, não influencia só os mais novos; apenas se manifesta mais neles, pois estão a crescer e, consequentemente, a construir uma imagem", explica o psiquiatra Daniel Sampaio.E os sintomas nem sempre estão à vista. O psiquiatra recorre a um estudo recente feito em 14 escolas públicas da Grande Lisboa para demonstrar que há comportamentos secretos que escapam à vigilância dos adultos: 7% dos adolescentes, a maioria raparigas, já se autolesaram, magoando-se intencionalmente, e 13% têm ou poderão ter um potencial risco de saúde. "Estes cortes são provocados por uma forte ansiedade e, na maioria dos casos, estão relacionados com o facto de os jovens não obterem a imagem que desejariam."Isabel do Carmo, especialista em doenças do comportamento alimentar, conta também que, ao estudar as raparigas das escolas dos distritos de Lisboa e Setúbal, concluiu que cerca de 40% das inquiridas com peso normal tinham o desejo de emagrecer. Com uma tão elevada percentagem, "isto já não é uma soma de casos doentios individuais. Trata-se de uma doença social, o que significa que as mulheres não aceitam o seu próprio corpo com as características femininas". E vai mais longe quando avisa que, "em pessoas mais frágeis, pode conduzir a uma doença individual, como a anorexia nervosa ou a bulimia".Os impactos no comportamento podem até ser invisíveis, mas não devem ser desvalorizados, defende a médica: "A baixa auto-estima, a insatisfação com o corpo que se revela no receio de se exporem, mas também a inibição sexual, além de todo o sofrimento subjacente, são algumas das consequências."Mulheres que atacam mulheres Tanto sofrimento com a sua própria imagem não impede, contudo, que sejam principalmente as mulheres as mais azedas com quem não cumpre os padrões de beleza. Maria Joanna Schouten, socióloga do género e da representação social da mulher, explica porquê: "São as mulheres que mais acompanham este tipo de eventos e são as mulheres que mais têm interiorizado as ideias e normas sobre o ideal de mulher." Em estudos antropológicos e sociológicos verifica-se também que as mulheres "tendem a criticar as situações que não se encontram dentro de determinado padrão".E que estragos podem causar essas críticas quando amplificadas nas redes sociais? "Depende sempre do tipo de personalidade, do momento de vida e dos recursos pessoais", responde a psicóloga Margarida Pedroso Lima.Os "recursos pessoais" estão relacionados com a auto-estima, os mecanismos para lidar com a adversidade, a inteligência, os amigos ou o estatuto. No caso da actriz, a psicóloga acredita que tem muitos recursos, fazendo com que o "impacto no seu comportamento não seja negativo". Margarida Pedroso Lima sublinha ainda que há "um desejo de querer pertencer e agradar, e somos todos responsáveis quando permitimos que uma pessoa seja criticada por não encaixar nos cânones de beleza, idade, cor e género".Cânones de beleza que já não são os mesmos de há um par de anos, diz o estilista Nuno Baltazar. "O culto das mulheres excessivamente magras já não existe nos dias que correm e há muitos casos em que são rejeitados trabalhos a modelos por serem demasiado magras."Há uma "estandardização" na tipologia do corpo no mundo da moda, mas o motivo é simples: "As manequins reservadas para desfiles têm de corresponder a determinadas características, pois a colecção é criada com antecedência. Não é viável fazer uma colecção em três dias para adaptar a diferentes tamanhos." O estilista acrescenta ainda que o objectivo dos criadores, quando apresentam uma colecção, é "evidenciar e realçar as roupas de forma a tornarem--se atractivas para quem está a assistir, não se tratando de corpos excessivamente magros, mas sim daqueles que encaixam nas roupas".Mas o conceito de magreza não existe apenas na moda, adverte Nuno Baltazar. Está igualmente na televisão e infiltrado no quotidiano: "As pessoas não se podem esquecer de que a Jessica foi ao desfile como convidada e não como manequim, tornando ingrata a comparação directa", explica. Aliás, a regra geral em desfiles de biquíni é ser "mais usual ver uma mulher com peito e curvas do que mulheres muito magras e sem peito".

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